Não sei quem foi que inventou que nunca, jamais, em circunstância alguma, se deve mentir.
Sempre ouvi dizer que a honestidade tem que vir antes do medo de salvar a própria pele. Que a gente tem que ser leal, mesmo que isso coloque em risco nossa dignidade e nossa reputação. Até aí, eu concordo. Íntegro mesmo é aquele que tem coragem de assumir seus próprios erros, e não aquele que se esconde atrás de suas imposturas feito um covarde. Que encara quaisquer consequências que estejam previstas para si.
Mas eu arrisco desafiar o senso comum de que nunca, jamais, em circunstância alguma, se deve mentir. Na verdade, acho que a mentira deve ser evitada em casos isolados. Não se deve mentir quando estamos pensando só no nosso bem estar. Mas, e quando estamos pensando no bem estar do próximo?
Às vezes precisamos poupar quem nós gostamos da verdade para protegê-las. Convenhamos que se fossemos honestos o tempo inteiro, a vida seria cruel demais. Ser humano nenhum é perfeito; todos nós erramos – e às vezes até insistimos nos erros. Se não escondêssemos um pouco da sujeira debaixo do tapete, o ambiente pareceria muito mais sujo. E olha, às vezes o que está escondido ali embaixo é só uma poeirinha.
Não queria ter que cair num clichê justamente nesse texto, mas não vejo outra forma de seguir em frente com minha tese, então, lá vai: a vida é feito de momentos bons e ruins. Uma desilusão pode tanto arruinar um momento bom quanto pesar mais ainda num momento ruim. Então, será que mentir seria tão errado se fosse para sustentar o bem de quem a gente gosta? Nesses casos, acho que vale a pena quebrar a regra.
Mentir é feio; a menos que seja por afeição.
Não tive muita experiência com crianças, mas uma coisa que eu sei e que é de conhecimento geral é que elas, ou a maioria, querem muitas coisas. Brinquedos, passeios, doces. O que é natural. Afinal, estão crescendo e à medida que isso acontece elas vão descobrindo o que é legal, divertido e gostoso. De modo que, quando elas não têm o que querem, ficam frustradas. Gritam, choram, esperneiam… - ah, é um horror. Nessas horas, o adulto responsável explica que, olha, não se pode ter tudo na hora que a gente quer, hoje não pode, agora não dá. A criança, coitada, não entende por que diabos ela não pode ter o que quer e continua com o escândalo. Assim, o adulto recorre à solução mais pragmática que existe: dá alguma coisa pra ela se distrair.
A frustração é um sentimento que deriva da infância e que nos acompanha a vida toda. A gente cresce querendo mais, porque afinal, nós estamos constantemente evoluindo, descobrindo. Queremos coisas novas, e isso não muda com nosso amadurecimento. Isso é uma coisa que fica. A gente quer mais e melhor, porque o mais e melhor é o que nunca tivemos antes. Queremos um emprego novo, porque cansamos do marasmo do que mantínhamos; um carro novo, porque a direção é mais macia que a do atual; um novo amor, porque o outro não deu certo – ou, em alguns casos, porque nunca houve a oportunidade de experimentá-lo. Novidades. Descobertas.
A lógica é que o “querer mais” nunca acabe. Mas o senso-comum já nos alertou desde cedo que querer não é poder. E então, quando o infante dento da gente tá lá, gritando, esperneando, chorando desesperadamente porque quer tal coisa, cadê aquele adulto que nos dizia que “não pode” e pra nos dar outra coisa pra nos distrair?
Aquele adulto é a gente. Nós precisamos nos contentar. Nós precisamos nos distrair com outra coisa.Toda essa analogia só resume o velho clichê de que “temos que seguir em frente”. E a nossa criança birrenta vai ter que entender que às vezes, não importa quanta ambição você tenha, algumas coisas estão simplesmente fora do alcance.
A frustração vai sempre aparecer de vez em quando. Assim como a raiva, o entusiasmo, a paixão e todos os outros sentimentos que existem. Faz parte. Mas para alguns ela aparece com menos frequência, pelo simples fato de se contentarem com a realidade e com o improviso – ou, metaforicamente: com a explicação do adulto e o objeto de distração que ele oferece à criança. Quanto mais mimado o nosso eu-infantil, mais longe queremos ir, e mais frustrados ficaremos. Então, até onde você quer chegar?
Hoje eu gostaria de escrever de algo diferente. Eu sigo a teoria de que os corações partidos dão as melhores histórias, de modo que a maioria delas tratasse do assunto, sendo ora inventadas, ora com uma pitada de autobiografia. Mas hoje não. Hoje eu quero fazer um perfil. Um perfil de uma pessoa bem, digamos, especial.
Era meu professor de história do Ensino Médio. Um cara de seus trinta-e-poucos, olhos castanhos, barba. Estava sempre com um copinho plástico de café preto, que deixava em cima da mesa e volta e meia, entre uma explicação e outra, dava um gole.
Ele que me ensinou a gostar de história. Ele ensinava o conteúdo de um modo que parecia que estava contando uma história fictícia. Dependendo do contexto, ele transformava a matéria em algo interessante, absurdo, impressionante, divertido, irônico – muito além do que qualquer outro professor conseguiria. E nada daquilo era inventado. Era como se eu nem estivesse em aula.
Apesar de adorar seu jeitão em sala de aula, eu gostava ainda mais dele do lado de fora. Quando ele sentava pra almoçar com os alunos; quando ele conversava com a gente no corredor; quando ele parava na porta da sala de entrega de boletins e comemorava com os alunos o resultado positivo. Eu nunca vou esquecer aquele abraço apertado quando eu passei pro 3º ano.
No fim, eu não aprendi só história com ele. Ele ensinou aquilo que uma parcela dos professores bons ensinam para seus alunos, sobre determinação, fazer as escolhas certas, construir um futuro promissor. Mas o que realmente torna ele excepcional, é que ele mostrou o que é ser uma pessoa boa. Realmente boa, ao ponto de fazer uma ex-aluna, formada há três anos, dedicar um tempinho e escrever sobre isso. Porque ele se importa de verdade com os alunos, com as pessoas. Eu gostaria de falar mais coisas que justificassem sua benevolência, mas não sei como. Ele faz a bondade parecer simples demais.
Eu não sei se ele se lembra de mim, mas eu me lembro dele. E é isso que importa. Afinal, pessoas assim, é melhor não esquecer.
Ao chegar em casa depois de mais um dia de trabalho, ela largou as chaves e a bolsa em cima da mesa e ligou o som. Era um hábito que mantinha - um dos únicos que poderia se agarrar depois que sua vida dera uma volta inesperada. Dirigiu-se ao quarto do seu minúsculo apartamento e se jogou na cama. Enquanto Morrissey choramingava “I Know It’s Over” da sala, ela desejou que pudesse esquecer alguns momentos tão rápido quanto se conformou de que eles jamais voltariam. Será que era possível? Simplesmente apagar alguém da memória da noite para o dia? Para ela, não. Mas teve que lidar com isso quando se deu conta de que não receberia uma costumeira ligação às sete da noite.
Depois de relutar contra o fato de que não teria que colocar dois pratos à mesa, e sim um, ela serviu-se de uma generosa taça de vinho e se sentou no sofá enquanto a comida congelada esquentava no micro-ondas. Cozinhar já não era mais tão agradável assim. Foi mais um hábito que abdicou, simplesmente porque não teria graça preparar uma refeição sem que houvesse alguém adoravelmente atrapalhado tentando ajudar ao lado dela.
Neste momento, desejou que a separação tivesse sido de forma diferente. Preferiria que os dois tivessem que seguir adiante com suas vidas, e não só ela. A possibilidade de que ele encontrasse outra garota, se apaixonasse e que se desvencilhasse totalmente de sua vida não seria tão dolorosa quanto a atual realidade. De verdade, ela só queria que ele estivesse vivo.
O micro-ondas apitou, lhe causando um desconforto maior ainda. Normalmente, quando o barulho que vinha da cozinha indicava que a comida estava pronta - fosse do aparelho, fosse das panelas - sempre havia alguém para exclamar que finalmente, sente, vamos comer.
Manteve essa rotina metódica durante muito tempo. A taça de vinho, que às vezes viravam duas, dependendo do quão forte a saudade batia. A comida congelada, que servia apenas para suprir uma necessidade fisiológica, mas que nunca era propriamente degustada. O silêncio, que embora preenchido com uma música, não preenchia o ambiente físico. A solidão.
Até que um dia, cansada da própria miséria, estabeleceu um prazo. Mesmo sabendo que o seu grande amor havia partido, ela ainda tinha uma vida, e teria que fazê-la valer a pena. Daria a si mesma três meses para se acostumar com a ideia de encontrar um novo alguém.
Quando chegou ao prazo final, partiu para a iniciativa propriamente dita, e passou a aceitar certos convites. Mas suas tentativas de envolvimento emocional foram um fracasso. Mesmo que tivesse saído em alguns encontros, sentia-se tremendamente insatisfeita. Quando chegava a ir para a cama com alguém, ficava irritada. Ao chegar em casa depois dos encontros frustrantes, estava psicologicamente esgotada e com uma dor de cabeça maçante, como se todos aqueles sorrisos forçados e interesses falsos no diálogo com o sujeito do outro lado da mesa de jantar de um restaurante qualquer tivessem exigido demais dela. Sair com outra pessoa lhe soava como uma traição; achou que não importava quanto tempo tivesse passado desde o falecimento dele, nunca pareceria tempo o suficiente. Chegou a pensar que, talvez, nunca mais voltaria a se apaixonar.
Afinal, já havia conhecido o amor. Sabia como era afagar os cabelos do outro quando deitava a cabeça no seu colo para assistir um filme em casa. Já ouvira várias vezes palavras afetuosas enquanto estavam enterrados sob os lençóis. Entendia bem o que era ter por quem esperar em casa. E, sobretudo, conhecia a sensação de pertencimento e de gratidão por amar e ser amada. Muitas pessoas passam a vida sem experimentar nada disso. Embora tivesse tido um romance efêmero e pouco durador quando comparado aos casamentos de meio século, pelo menos amou uma vez. E amou muito.
Convencida da sua realidade, ela passou a se despreocupar. Passou a entender um pouco mais sobre a fragilidade da existência dos seres na terra e o inexorável fim a que tudo leva. Quando olhava para as fotos do parceiro, não sentia mais raiva; ao contrário, sentia orgulho. Orgulho dele. Ele não viveu muito tempo, mas havia tido uma trajetória bonita. Fora uma pessoa boa, prestativa e amável. Fez o melhor que pôde de sua vida, e isso, para ela, era lindo e admirável.
É engraçado como achamos que nunca mais vamos amar de novo, até encontrar outra pessoa. Conheceu alguém algum tempo depois. Um rapaz bem diferente do que esperava - mas ela já não esperava mais nada, mesmo. Era implicante, impaciente e extremamente temperamental. Mas sempre que ela estava estressada, ele a fazia rir. Podia se estender por horas numa briga, mas quando o assunto era encerrado, seus braços a protegiam num abraço forte e caloroso. Era teimoso, mas defendia com paixão suas opiniões com argumentos tão inteligentes que chegava a ficar mais bonito. Não era pontual, mas estava sempre presente.
Nunca ela esteve tão feliz de ter se enganado. Detestava se reduzir a clichês, mas não conseguiu evitar pensar que a vida sabe o que faz quando a gente sabe o que fazer dela. Havia superado uma dor que pensou que a atormentaria para sempre, o que lhe equivalia certa conquista.
Numa tarde de domingo, resolveu recolher as fotos que estavam dispostas nos porta-retratos pelo seu apartamento quando se deparou com sua favorita: os dois na praia, cobertos de areia e sal, dando risada. É claro que ela ainda sentia um forte aperto quando se lembrava daquele que escapou, mas evitava transformar as boas lembranças em uma má. Olhou para a foto por alguns longos segundos e a apertou contra o peito. Depois, tirou do porta-retrato e guardou num baú, junto com os álbuns de família, diários e souvenires. Substituiu por uma da sua nova vida. Enfim, não parecia mais uma traição.
É sábado à noite e eu estou mais uma vez em casa. Talvez você não saiba o quanto tenho ficado em casa nos últimos tempos. Não que isso seja ruim: minha própria companhia tem me feito muito bem ultimamente. Você, no entanto, provavelmente não está em casa. Deve estar em alguma festa, refestelando-se de bebidas alcoólicas, rindo com os amigos e avistando alguma garota que te interessa para passar a noite. Eu me conformo com isso, mas também fico um pouco incomodada e com raiva, principalmente por saber que você costumava passar as noites comigo. Além disso, também sinto um pouco de inveja. Eu invejo a maneira que você vive. Porque você realmente vive. O que, para todos os efeitos, é uma das coisas que mais me atrai em você.
Espero que nada disso soe romântico. Você sabe que eu não sou nada disso. Apesar de este texto ser mais sobre você do que sobre qualquer outra coisa, está longe de ser uma carta de amor. No mais, sei que se fosse algo romântico você provavelmente interromperia a leitura. Não por ser do gênero, mas sim por vir de mim. Acho que não preciso explicar o porquê, mas vou do mesmo jeito: o meu amor, a essas alturas, te assustaria.
Nem sei por que eu escrevo. Estou lendo um livro que me desperta vontade de exercer esse velho hábito, e eu lembro o quanto você gostava dos meus textos. Escrever um texto qualquer não pareceria certo hoje, já que passei o dia todo pensando em você. Deve ser por isso que esta carta está fluindo com tanta naturalidade. Já escrevi três parágrafos e ainda nem cheguei ao ponto. Bem, vamos lá: estou com saudades.
Simples assim. Você está me fazendo falta. Sinto falta do seu corpo, dos seus beijos. Era bom, muito bom. Sinto falta das coisas que você me dizia. Isso me fazia um bem desgraçado. Você me mantinha feliz.
Também sinto saudades das nossas conversas de muito tempo atrás. Gostava de suas histórias. Do jeito que sua cabeça funcionava, das coisas que você defendia, muito embora não concordasse com tudo aquilo. Eu me segurava para não gritar com você quando tentava passar minha opinião. Você se agarrava à sua com tanta vivacidade que parecia nem ouvir – ou se importar – com o que eu pensava. Mais que me deixar irritada, aquilo me magoava muito. Mas eu superava, porque eu amava – amo – você. E superei tantos outros dos seus defeitos, também…
Aliás, você não sabe o quanto e quantas vezes eu te odiei. No sentido de que você realmente sequer sabia que eu estava enfurecida. Eu te perdoava e você nem se dava conta. O relacionamento entre nós dois nunca lhe pareceu estranho, em momento algum: nunca fiquei distante, nunca pareci irritada, triste ou magoada para você. A verdade é que isso aconteceu várias vezes. Não vou dizer que você é o culpado por isso. Você não tem culpa de muita coisa, ou melhor, você não tem culpa de quase nada. Se estive distante, irritada, triste ou magoada, bem, dificilmente eu aparentava isso. E se aparentava, eu lhe perdoava antes que você pudesse perceber. Eu nunca te dei tempo para pedir desculpas.
Talvez eu esteja parecendo meio masoquista aqui. Por que, afinal, eu amo uma pessoa que não me dava a devida atenção? Porque no final das contas, você me dava. Nem que fosse um pouquinho. E eu me alimentava daquilo como se nunca tivesse sido abastecida com seu amor antes. A cada raro “eu te amo” que você dizia meu coração se enxia de felicidade. Eu gostava que seus pronunciamentos fossem escassos; assim, eles não pareciam tão vagos.
O problema é que isso, com o tempo, tornou-se mais excepcional. Você passou a ficar mais ausente. É claro que eu tive a minha parcela de culpa, mas, francamente, não sei como foi que deixamos chegar ao ponto que chegou. Um dia você simplesmente disse que não queria mais, e foi embora. E eu fiquei aqui. Ainda estou aqui.
Sei que isso aqui não muda nada. Você não vai voltar, eu sei disso. Mas pelo menos eu me sinto um pouco mais aliviada. E agora que eu cheguei ao final, posso retificar o que eu escrevi anteriormente: isto é uma carta de amor. E talvez eu esteja sendo romântica. Você sempre despertou o meu melhor, mesmo que isso doesse em mim.
Numa noite dessas, eu sonhei com você. Sonhei que você tinha vindo conversar comigo, que a gente tinha se acertado e que estava tudo bem. E no instante em que eu acordei, naquele momento entre o “abrir os olhos” e “cair na real”, eu me senti tão feliz, tão aliviada. Mas passou quando eu me dei conta de que era tudo só fruto do meu inconsciente.
Triste, resolvi que na mesma noite eu iria sair e tentar esquecer você tão rápido quanto você me esqueceu. Saí, tomei um porre, ri alto demais, exagerei na dose. Mas no dia seguinte, eu ainda estava sozinha. E me dei conta de que na verdade eu não precisava de um porre. Eu só precisava de você.
O que sobrou pra mim, agora? Uma dor de cabeça monstruosa, um enjoo massivo e um coração partido.
I just wanted to hold you in my arms.
Quem aqui nunca teve que aconselhar um amigo aos prantos? E quem aqui nunca precisou do mesmo? Eu já. Já tive que enxugar lágrimas, dar uns tapas na cara pra pessoa acordar e sugerir soluções para um problema qualquer. E já fizeram o mesmo comigo. Já me acolheram, já levei tapa e já me ofereceram soluções maravilhosas para os meus perrengues.
Eu gosto de dar conselhos. Gosto de saber que sou confiável e faço o possível para poder ajudar. Mas… tenho limites. Como qualquer outra pessoa.
Parece que têm pessoas que só vêm falar contigo pra ter abertura pra largar os problemas em cima de ti. Tu, que é amigo, ajuda. Até que isso começa a ser mais seguido. A pessoa começa a te alugar. Te convida pra sair só pra dizer o quanto está miserável e pra saber o que deveria fazer.
Amigo, pera lá. Se eu quisesse ouvir os teus problemas toda vez que a gente se encontra, passaria a cobrar por hora. Mas quem sabe tu não me paga um drink, pra eu poder aguentar toda essa choradeira? Porque no seco não dá.
Não estou dizendo que as pessoas que tenham problemas recorrentes parem imediatamente de reportar tudo pros amigos, só pra não ser chato. Claro que não. Às vezes as pessoas passam por momentos difíceis e precisam de mais apoio. Isso é extremamente compreensível. Mas, reclamar de qualquer coisinha do cotidiano? Ou, pior: reclamar sempre da mesma coisa?
Não tá feliz, então faça alguma coisa. Muda o que tu pode mudar. Aceita o que tu não pode mudar. E esse é o último conselho que eu posso dar para as pessoas que são preguiçosas demais pra arranjar soluções para os próprios problemas.
Minha mãe sempre me avisou para ter cuidado com panelas de porcelana. Sabe, quando você esquenta comida numa panela de porcelana, o ideal é esperar que ela esfrie antes de coloca-la embaixo d’água. Caso contrário, a panela pode sofrer um choque térmico e trincar.
Nosso coração também funciona mais ou menos como panelas de porcelana. Quebra com facilidade. E também trinca da mesma maneira. Como? Bem, às vezes nosso coração também está quente, pelando, pegando fogo. Mas aí vem alguém e joga um balde d’água fria em cima dele. E aí? Trinca, não trinca? Não quebra. Mas trinca.
O choque térmico dói. Não é a mesma coisa que uma queda. Não é a mesma coisa que ter que juntar todos os cacos do chão e colar pedacinho por pedacinho. Mas é um estrago. É uma cicatriz que vai ficar ali pra sempre.
A boa notícia é que panelas não ficam eternamente danificadas por causa de uma mísera trinca. Dá pra continuar usando normalmente. Mesma coisa com um coração trincado. Não é um dano tão terrível. É só um dano. Mas dá pra continuar a vida normalmente. Dá pra continuar acendendo pequenas faíscas e chamas no coração trincado. Só que com mais cuidado. Sempre procurando esfriar um pouco antes que alguém jogue o terrível balde d’água fria. Porque afinal, quantas trincas são necessárias para um coração finalmente partir?
Enquanto esse sentimento quentinho me acomoda e me deixa to-da-bo-ba, ele também me mata de medo. Não que seja uma coisa tão forte a ponto de partir...
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